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Escritor, jornalista e colunista da Folha. É do Cariri, mas teve a sua educação sentimental no Recife. Visite seu blog.

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Escritor, diretor e produtor de animações. Tem artigos e crônicas em revistas e sites. Coordena o Blônicas. Veja seu site.


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A quadrilha do planalto.

De Edson Aran.

Uma historinha de festa junina.

Eu estava cochilando na rede, quando a estridência do telefone me tirou do estupor. Era o compadre Ciboronato Conegundes.
“Ordinelson, trem à toa, tu ainda tá tocando?”, perguntou o indigitado.
“O dinheiro tá curto pra pagar puta, compadre”, eu expliquei.
“Tô falando do triângulo, excomungado da porra!”
Ah, sim! O triângulo. Eu, Ordinelson Peçanha, sou o maior tocador de triângulo do nordeste. Foi meu pai, Oriclides Peçanha, quem me incentivou.
"Aqui todo mundo vai tocar alguma coisa”, ele falava. “Sanfona, zabumba, reco-reco e se o desembestado for muito retardado vai tocar triângulo!”
No triângulo fiquei, no triângulo me formei. Eu matutava sobre esses bons tempos quando compadre Ciboronato Conegundes me tirou de novo do estupor.
“Sai de novo do estupor, excrescência! Meu tocador de triângulo morreu em briga de faca na Ceilândia. Tem um arraial chique de dar nojo hoje à noite e eu tô precisado de um triângulo, Ordinelson. Lá é tudo do bom e do melhor e tem cachaça que não acaba mais!”
Aceitei. Estava matando vira-lata a grito. Peguei o triângulo, entrei no Fiat 157 e queimei o chão. Quando cheguei no lugar, tinha um monte de carros de placa branca. Dois brutamontes de ternos tomavam conta da entrada. Na minha frente tinha uma mulher que eu tinha visto na televisão, de vestido azul com remendo de mentira.
“Veio participar da quadrilha?”, perguntou o homem de terno pra ela. 
A velha virou uma surucucu.
“Me respeite, vagabundo, que a CPI não descobriu nada!”
Ela entrou e eu fui atrás. Eita festa boa da moléstia. Tinha pipoca, milho verde, cural, cerveja, vinho, vodca, campari, martini, licor, grapa, champanhe, cerveja, whisky, rum, conhaque, saquê, cachaça e quentão pra tudo quanto é lado. Eu ainda estava no primeiro copo, quando compadre Ciboronato Conegundes me bateu no ombro:
“Sobe no palco, trem à toa. Daqui a pouco as autoridades vão sair em procissão e depois o forró vai comer!”
Subi no palco a tempo de ver a procissão. Na frente vinha um gordo barbudo e suarento, vermelho de cachaça, carregando o estandarte de Santo Antônio. Atrás dele vinha um monte de autoridade vestida de caipira chique. Roupa com remendo de mentira e chapéu de palha novinho. Porque caipira, a gente sabe, anda tudo rasgado, molambento e não tem dinheiro pra encher a cara de pinga que nem aqueles degenerados. E, olha, eles estavam mais encharcados que cachorro em dia de chuva.
O barbudo cachacento trocava passo feito peru de natal. De repente, o desconjuntado tropeçou e enfiou o estandarte do santo na cabeça de outra autoridade que vinha passando. O atingido virou uma jararaca:
“Você fez por querer, pinguço safado! Agora eu quero mais dois ministérios e quatro estatais, senão saio da sua base de apoio!”
O cachaceiro barbudo arrancou o paletó e já ia sair no braço com o outro. Mas compadre Ciboronato Conegundes, vivo como ele só, percebeu que ia dar merda e gritou no microfone:
“Vai começar a quadrilha! Todo mundo dançando! Todo mundo dançando!”
Os mangüaceiros esqueceram as desavenças e começaram tudo a dançar. Eu mandava brasa no triângulo, cego Oraldino Nestor castigava a sanfona e Toninho Zarolho batia zabumba, enquanto compadre Ciboronato Conegundes comandava a quadrilha.
“Olha a cobra!”, ele dizia.
E os pinguços gritavam:
“Úúúhhh!”, e viravam pro outro lado.
“É mentira!”
“Úúúhhh!”, viravam de novo.
“Olha a onça!”
“Úúúhhh!”
“É mentira!”
“Úúúhhh!”
E assim foi. Compadre Ciboronato Conegundes se empolgando e animando os pingaiada. Então de repente, o compadre falou:
“Olha o ladrão!”
Pra quê?! O barbudo cachacento rasgou a camisa e partiu pra cima do compadre:
“Ladrão é a puta que te pariu, forrozeiro elitista do caralho!”
Foi uma confusão daquelas de bordel. Voou cadeira e garrafada pra tudo que é lado. Eu aproveitei a bagunça e escapuli pelo portão, mas fiquei no prejuízo: não vi a cor do dinheiro e ainda perdi o triângulo. Por isso que eu digo: o próximo barbudo pinguço que eu encontrar na rua, eu meto a mão no pé do ouvido.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h33
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Absorvendo o perdão.

De Thaís SBA (com participação de Nelson Botter Jr).

Não era traição.

Ela não poderia considerar aquilo uma traição. Era só uma mania. Meu Deus, quem não tem manias nesse mundo? Umas mais esquisitas, outras menos, mas é normal do ser humano. Ou não é? Tudo bem que a mania dele não era das mais comuns, mas poxa, cada um com seus problemas, ele não prejudicava ninguém. O cara podia estar matando, podia estar roubando, mas não estava fazendo nada disso.

Sua esposa levou um tempo para desconfiar, mas aos poucos foi notando que toda vez que menstruava, o lixinho do banheiro parecia que tinha menos papel do que aparentava na hora de limpar. Além disso, percebeu que seus absorventes usados estavam sumindo. Aquilo era um tanto estranho, pois não tinham empregada e ele não era de ajudar nas tarefas domésticas, ainda mais quando o assunto era recolher o lixo.

Enfim, ela desconfiou que alguma coisa estava errada, mas jamais passou por sua cabeça o que seu marido fazia com estes encharcados absorventes. Com medo de estar louca e imaginando coisas, mas sem coragem de tocar no assunto com o suspeito marido, resolveu pegá-lo no flagra numa noite em que o dito cujo havia levantado de madrugada para ir ao banheiro. Ela, com ouvidos bem apurados, escutou um barulho estranho... Levantou da cama sorrateiramente e caminhou em direção ao banheiro. Sua mão tremia ao encostar na fechadura da porta, mas ela tinha que fazer aquilo, precisava entender o que estava acontecendo, que mistério era esse.

Num ímpeto abriu a porta e deparou-se com a cena mais dantesca de sua vida (mais dantesca do que quando viu seu pai mordiscando um morango da boca do motorista da empresa em um restaurante do centro): seu marido estava sentado no chão do banheiro, alimentando-se de seus absorventes usados, sobre a tampa da privada, deliciando-se com os coágulos que estavam grudados no canto de sua boca

Quando viu aquilo, caiu gélida no chão em posição fetal, e ali chorou por toda a noite.

O marido levantou-se ainda mastigando um pedaço de Sempre Livre com abas. Assustado com o flagra, chorava e desculpava-se.

-Você é de outro mundo! - ela gritava. - Que monstruosidade! Você é filho de Satanás! Sai Exu!
-Mas amoreco, eu posso explicar! Deixe-me pelo menos tentar.
-Exu Fubum Cuxum!!!
-O que é isso, amoreco! Você está me assustando!
-Lucum, tudum, grussum!

Ela repetia palavras incompreensíveis e chorava desconsolada. Ele, sentindo-se um vampiro de quinta categoria, saboreava as últimas plaquetinhas grudadas e olhava aquela cena bestificado enquanto soluçava tentando encontrar uma resposta.

-Que traição!  - gritou a esposa - Como você foi capaz de esconder uma coisa dessas durante tanto tempo! Se eu quisesse me casar com um vampiro, casaria com aquele do filme da entrevista, que tem a cara do Tom Cruise, olho azul, e morde pescoços com um charme irresistível...

Nesse momento, ele urrou medonhamente e fugiu.

Três dias se passaram, e após um retiro num convento, ela resolveu ir atrás do marido, pois as freiras (que nunca foram casadas) a convenceram que o amor cura tudo.
 
Só foi encontrá-lo acidentalmente no banheiro feminino de um shopping da Zona Sul, roubando O.B. 's usados das moças que por ali passavam.

Então se olharam: ela, com as calças quase arriadas na entrada da porta e ele, com um pedaço de O.B. inchado na boca, lambendo os dedos que apoiavam um coágulo roxo.

Ao ver que ele se alimentava do sangue de outras, ficou possessa e não teve dúvidas, mostrou que ali quem mandava era ela, e que nenhuma lambisgóia roubaria seu marido. Deixou a calça cair até os joelhos, mirou firme nos olhos dele e disse: "Vem, meu amor, vem com fé que estou naqueles dias".

Foi um banquete. Perdoaram-se. Voltaram para a casa e ali se amaram mais ainda.

Um mês depois, enquanto ele limpava os ouvidos com cotonetes, o telefone tocou e lá foi ele atender. Após voltar ao banheiro, ela utilizava o vaso para fins orgânicos.

-Quem era, amoreco? - ela perguntou.
-Era sua mãe avisando que vem almoçar aqui hoje.
-Então temos que preparar o almoço mais cedo.
-É verdade. (silêncio). Ué eu jurava que tinha deixado o cotonete aqui em cima da pia...
-Não brinca! Tem certeza? - respondeu ela, enquanto tirava discretamente um pedaço de algodão que havia enroscado no meio do dente.

Thaís SBA escreve no sanatorio-municipal.zip.net e Nelson Botter Jr escreve neste sanatório aqui.

Escrito por Blônicas às 15h03
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O mundo faliu.

De Tati Bernardi.

Essa foi a frase da minha mãe no último domingo, saindo do Hospital
Samaritano. Depois de quatro horas repetindo um exame de sangue para
saber se ela estava enfartando (e ela e eu quase enfartamos de verdade com
tantas repetições, pensando que só poderia ser algo grave!) descobrimos que
a máquina do hospital estava quebrada! E as enfermeiras vinham na maior
cara de pau e falavam “senhora, o problema é o seu sangue”. Não agüento
isso, não agüento o mundo. Se tem uma coisa que é boa na minha família, é
o sangue italiano que esquenta muito mais do que eu gostaria de esquentar a
cara da vaca da enfermeira falando mal do sangue da minha mãe. Foram
quatro horas no hospital e era a porra da máquina que estava quebrada. E
nós, classe média, felizes por estarmos em um hospital de Higienópolis
coberto por nossos planinhos médicos de classe média. Eu imagino o que
não sofre e o que não é enganado quem nem isso tem.
Mas tudo bem, dane-se a merda da máquina de processar sangue do hospital
Samaritano e a enfermeira vaca que nos enganou. E o médico que nos
enganou. Mal sabem eles que o que minha mãe tinha era um problema de
estômago facilmente solucionado por ela mesma que agora deu de se
automedicar lendo o Google. Até quis brigar com ela...mas com que
argumento depois do que aconteceu? Viva o Doutor Google que não falha
nunca!
Depois de uma manhã no hospital, tudo o que eu queria era pegar meu carro
logo, no estacionamento do hospital, e correr pra casa. Vi que estava sem
dinheiro mas isso não seria um problema, segundo o manobrista “aceita
crédito e débito, moça”. Ah é? E quem disse que eu tenho crédito ou débito?
Meu Credicard Mastercard internacional foi bloqueado por clonagem (algum
infeliz quis comprar 3 mil reais em besteiras nas Lojas americanas no Rio de
Janeiro enquanto eu pagava um cafezinho de 3 reais numa cafeteria no
Jardins, em São Paulo. E meu cafezinho, por estar em São Paulo, foi
bloqueado. Isso já faz dez dias e cadê um novo cartão? Não sei. Cada vez que
tento reclamar alguma vaca me atende mal e me deixa esperando 3 minutos
numa musiquinha chata. Desisti.
Meu cartão de débito venceu em maio. Ligo no cartão para pedir um novo e
eles falam que é com a minha gerente do Bradesco, uma imbecil que vive
rouca de tanto ir em micareta. Ligo pra imbecil e ela me diz que é problema
da central do cartão. O fato é que estou há um mês sem poder movimentar
minha conta, fazendo cheques de dois reais para comprar bala. E a gente
pagando aquelas taxas e mais taxas e aturando comerciais com aquela voz
grossa. Uma “completamerda”.
Mas tudo bem, minha querida e ex quase enfartada mãe me empresta
dinheiro para o estacionamento. Vamos em frente. Agora é chegar em casa e
curtir o resto do domingo. Certo? Errado. Quem me aguarda em casa,
desesperada, é a luzinha verde da secretária eletrônica. Quinze chamadas
não atendidas do meu pai. Ele não sabe o que fazer, já que a Nextel instalou
um gerador de força praticamente dentro de sua casa e ele não dorme há
uma semana. Ele já ligou pro SAC da Nextel, pro Psiu e até pra polícia. Nada
foi feito. Na-da! Ele tem quase 70 anos e não dorme há uma semana. Minha
mãe escapou de enfartar, mas agora é ele quem está correndo riscos. Mundo
de merda. O mundo faliu, minha mãe diz antes de tomar remédio pro
estômago prescrito pelo Doutor Google. Esse sim funciona. Só ele.
Penso que para alegrar meu pai, talvez, hoje a NET instale o combo “telefone,
internet e tv a cabo” que comprei para dar de presente a ele, há mais de um
mês. Como assim a NET ainda não instalou, pai? E nem ligou pra combinar
uma hora com você? Ligo pra NET, sou atendida por 567 babacas que só
passam o problema pra frente e nada resolvem. Depois de 35 minutos no
telefone em esperas insuportáveis e aturando gente que me perguntava as
mesmas coisas 567 vezes, um ser mal humorado e semi analfabeto me
informa que a rua do meu pai está “fora da área de instalação da NET”.
O mundo faliu. Era domingo a noite e eu só queria cuidar dos meus pais
como eles, um dia, já cuidaram de mim. O jeito foi fazer piada porque sorrir
ainda é de graça e, graças a deus, não depende dessas marcas que nos
bombardeiam o dia inteiro de informações e ódio. E agora, pra completar,
ainda tem a nova CPMF. O mundo faliu.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h24
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A arte de pedir - a pedidos.

De Xico Sá.

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.

Como elas pedem gostoso.

Como elas são boas nisso.

Resistir, quem há de?

Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico. É o jeito de pedir, o ritmo da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.

Pede que eu dou.

Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!

Estou pedindo: pede!

Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.

Pede a bolsa mais recente da Louis Vuiton, pede o shopping inteiro, pede o Iguatemi, pede a Daslu, melhor ainda, pede a Daspu e veste só para o teu homem.

Pede que compro nem que seja no camelô, na 25 de Março, nas galerias dos coreanos, compro da Orenilda, minha prima sacoleira de São Miguel Paulista.

O que importa é o requinte e o atendimento da demanda.

Não me pede nada simples, faz favor, please.

Já que vai pedir, que peça alto. Você merece, uma mulher como essa não tem preço.

Um concerto de Iggy Pop bem longe daqui?

Te levo.

Amor sincero?

Fácil, fácil.

Fidelidade?

Acabo de criar o seu exclusivo cartão de milhagem.

Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.

Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, 12 vezes sem juros, no pré-datado, no cheque sem fundos.

Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim no braço..., são lindamente barulhentos.

Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.

Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.

Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”

Um jantar no D.O.M. ou no Fasano?

É pouco para o meu bico.

Flores de helicóptero?

Como na filosofia do pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!

Pede, benzinho, pede tudo.

Que eu largue a boemia, pare de beber e me regenere???

Pede, minha nega, que o amor tudo pode.

Mesmo as que têm mais poder de posse que todos nós não escapa de um belo pedido.

Com estas, as mais poderosas, tem ainda mais graça. Elas pedem só por esporte ou fetiche, o que não lhes comprometem a pose e muito menos a independência futebol clube.

Não é questão de poder ou dinheiro.

O que importa é o pedido em si, o romantismo que há guardado no ato.

Os melhores cremes da Lancôme? Vamos a Paris comprar juntos.

Eu lhe peço: me pede.

Não pede mimos baratos, pede atenção, por exemplo, essa mercadoria tão cara ao mundo das moças. Pede que corrija os erros do meu português ruim, que eu deixe de alternar a segunda e terceira pessoa, que falta de classe, na boa, pede, nem que eu chame o Pasquale para ficar de “vela” corretiva entre nós dois...  

Pede, amorzinho, pede gostoso, sou o senhor das tuas demandas.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h13
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Fomos perfeitos.

De Cléo Araújo.

Segurei sua mão antes de atravessar a rua.
E de repente, pensei: acho que quero esse homem para sempre.
Você e seu jeito engraçado de ser elegante, seu jeito elegante de ser engraçado.
Como naquela vez, quando cruzou a sala para me acudir de uma cantada inoportuna... Foi como se não quisesse resgatar ninguém que você seguiu, despretensiosamente determinado a me tirar da área de investidas do amigo embriagado. Eu fingi nem perceber. Toda a sedução estava em deixar você ser assim, meio lord, mesmo quando tinha que lidar com um amigo cheio de mãos.
Com você fui até meio mulherzinha. Foi naquele jantar, em que eu deixei você escolher o prato para mim. Logo eu, que chegava aos lugares com o menu lido previamente pela internet e que costumava indicar os pedidos que os outros deveriam fazer. Você me quebrou, me deixou gaga e me apresentou cordeiro ao molho de menta. E eu gostei.
Você segurava minha mão sobre a mesa, onde uma luzinha de vela iluminava o estreito espaço entre nós. E eu nunca mais iria querer ser sozinha na minha vida se tivesse você me mimando daquele jeito, a segurar minha mão, a me indicar pratos de cordeiro ao molho de menta, a me servir taças de vinho e a me fazer querer você para sempre.
Um pouco era só por causa daquela entrada que você tinha do lado direito da testa. Outro pouco era porque você tinha aquele olhar safado/cavalheiro de Matthew Mcconaughey. Ou talvez fosse só porque você era quentinho num dia frio.
Eu gostava particularmente da manhã. Você era mais perfeito do que em outras horas do dia, pela manhã. Seus braços davam a volta no meu corpo e eu me sentia sedutoramente pequena e franzina. Acho que poderia me sentir pequena e franzina para sempre, ali. Eu ficava na cama e você ia se arrumando enquanto o quarto se perfumava de um aroma de melão. Então, você se vestia. Nunca houve no mundo alguém que ficasse tão bem em uma camisa branca.
Você me arrastava até a cozinha, preparava ovo mexido, suco de laranja e café. Eu só assistia. Não fazia nada, a não ser deixar você cuidar de mim e de tudo.
A gente saía, você segurava minha mão e assim ficava fácil de a vida ganhar sentido. Acontecia em cada esquina, quando a gente parava para esperar os carros e você me beijava. E segurava a minha mão. E me beijava de novo. E de repente, eu pensei: acho que quero esse homem para sempre.
De mim você não esperou nada de elementar. De mim, eu sei, você sentiu saudade logo depois. Mas foi como num trecho de Lygia Fagundes Telles que o resto aconteceu.
O meu “para sempre” virou um casamento com os mistérios. O seu “para sempre” eu nunca soube.
Eu só sei que é do toque morno das suas mãos sobre meu rosto frio que eu me lembro...
Toda vez que a temperatura cai.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas e ficou um tanto romântica essa semana.

Escrito por Blônicas . às 10h39
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Declaração Universal dos Direitos do Boiola Enrustido.

De Henrique Szklo.

1) Todo boiola enrustido nasce homem e equipado com todas as ferramentas para o exercício de sua masculinidade. Mas em algum momento, se torna vítima de um inadiável e incontrolável impulso;

2) Todo boiola enrustido tem o direito de tentar esconder dos outros o que ele não consegue esconder nem de si mesmo;

3) Todo boiola enrustido tem o direito de casar com uma mulher e até ter filhos para ver se aquela vontade estranha passa ou se, pelo menos, as pessoas param de fazer comentários maldosos a seu respeito;

4) Todo boiola enrustido tem o direito de usar lingerie, mas não aquelas vulgares e espalhafatosas, por que afinal de contas ele é homem ou não é?

5) Todo boiola enrustido tem o direito de amar secretamente o Marcelo Antony;

6) Todo boiola enrustido tem o direito inalienável de ter sempre uma piadinha de bicha para contar mas, principalmente, interpretar, com todos os detalhes, incluindo-se aí os gritinhos e trejeitos;

7) Todo boiola enrustido tem o direito de ler a revista G só por causa das matérias extremamente interessantes;

8) Todo boiola enrustido tem o direito de, a título de brincadeira, passar a mão na bunda dos amigos ou sentar em seus colos para “fingir-se” de gay;

9) Todo boiola enrustido tem o direito de ter seu lado feminino muito desenvolvido. Desenvolvidésimo!

10) Todo boiola enrustido tem o direito de acreditar que um dia essa vontade louca vai passar e ele vai voltar a ser 100% homem.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h56
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Os micos da Dias Ferreira.

De Tati Bernardi.

Na minha rua tem de tudo. Não é bem a minha rua, sendo que aluguei
apartamento aqui no Rio só enquanto termino de escrever um programa para
a nave mãe. Daqui a pouco, se tudo der certo, volto pra poluição, o mau
humor e o trânsito de São Paulo. Não sei explicar, mas voltar é tudo o que eu
mais quero. Narciso acha feio o que não é espelho mesmo quando o espelho
é feio.
Mas enfim, na minha rua carioca, emprestada por alguns meses e que me
falaram (muita gente) ser uma das melhores do Rio, tem de tudo.
Eu acordo todo santo dia, as sete e quarenta e três, com as pombas fazendo
festa no ar condicionado. Elas gemem, brigam, reclamam, urram. Sei lá que
porra de som é aquele. Parecem mudinhos esfomeados. E me acordam. Rolo
na cama pensando que Dias Ferreira, o português, nasceu em um lugar
chamado Pombeiro da Beira. Ou seja: vai ver sou eu que estou no lugar
errado.
Tento ignorar o som e voltar a dormir mais um pouco, afinal, os mudinhos
esfomeados não são nada quando comparados a todo o inferno de sons a
que fui submetida até chegar àquele ponto.
Das dez da noite às duas da manhã, aturo restaurantes e baladas cheias de
cariocas o que, quase sempre, quer dizer gente animada demais e louca por
uma mesinha “lá fora”. Não to ofendendo! É elogio. Mas não tem nada mais
chato do que querer dormir com gente animada demais três andares abaixo
de você e louca por uma mesinha “lá fora”. Já tentei me unir a eles, mas não
dou conta de tanta alegria. Sou paulista e preciso ficar mal humorada de vez
em quando. Caso contrário, tenho impressão que posso desintegrar ou ser
presa por falsidade ideológica.
Das duas da manhã às quatro, aturo bêbados que se recusam a ir embora ou
falar baixo e desse horário em diante, até chegar o horário das pombas,
aturo o caminhão de lixo sempre acelerando e o barulho dos vidros e das
piadas dos lixeiros que adoram acordar os outros que não são lixeiros.
Depois vem o Globo Repórter dizer que eles “amam a sua profissão”. Sei.
Durante o dia, minha rua emprestada tem o trânsito parado, cheio de filas
duplas e gente que não sabe fazer baliza. Portanto, o buzinaço é sem fim.
Sem fim porque é o dia inteiro e sem fim porque cada buzina dura o tempo
de eu falar todos os palavrões que eu sei. Carioca ama uma buzina, nunca vi.
Só não ama mais do que mijar na rua. Mijar na rua ainda é o hit parade da
terra da mulher melancia.
Minha rua tem de tudo. E como tudo que tem de tudo, tem também as coisas
boas. Minha rua tem duas livrarias bacanas, a Argumento, minha boa
companheira das manhãs, na qual leio meu jornal, e a Letras e Expressões,
lugar perfeito pra quando você, ao invés de se matar, decide comprar um
livro as quatro da manhã. Só não vale comprar Albert Camus, que a vontade
volta.
Minha rua também tem predinhos com lojinhas charmosas. O famoso
(famoso pra mim, sei lá) Palm Beach, com lojas como a da Adriana Barra e um
outro predinho ao lado da Argumento, com uma lojinha de vestidos que é de
foder a conta bancária.
Tem ainda locadora de vídeos com mais Truffaut que a 2001 de São Paulo,
dois supermercados com bastante coisa orgânica e eu ando super “ecochata”
(uma coisa tem a ver com a outra ou pirei?), duas farmácias (adoro farmácia,
até porque vende aqueles protetores de ouvido pra dormir em meio ao
barulho) e tem até um Fleury em frente de casa! Adoro o Fleury! Odeio fazer
exames e entrar no Fleury, mas adoro ele.
Tem restaurante de tudo quanto é tipo, gente de tudo quanto é tipo, bonita,
famosa, interessante, metida a besta achando que 26 graus é inverno
europeu (carioca adora um motivo pra botar cachecol e bota, nunca vi, e eu
só sinto um calor infernal aqui) e tem a coisa mais legal do mundo: uma casa
de chá das 5! Tipo Londres, manja? Maneiro. Maneiríssimo. Mas como no Rio
as coisas são meio malucas, o típico chá inglês deles não leva leite. Vai
entender.
Minha rua tem de tudo. Outro dia, descendo pra pôr o lixo lá fora, dei de cara
com um ex namorado paulista jantando com sua nova velha namorada que eu
acho que é paulista, se não for marciana. Porra, vieram de tão longe (tá bom,
é perto) pra jantar em frente a minha casa? Gente chata. Enfim, deixei o lixo
lá fora e segui a vida.
Minha rua tem de tudo. Todo sábado, um morador de rua faz pirotecnia em
baixo do meu prédio. Berrando muito. E seus infinitos filhos são os únicos a
aplaudir, pois ninguém agüenta mais o cara.
Minha rua tem salão de beleza de perua e de gente que chega em perua. Tem
de tudo. Tem botecos e padarias daquele tipo que fede frango assado as seis
da manhã mas também tem o Sushi Leblon, terceira casa da revista Caras
depois do castelo e da casa da Suzana Viera.
Minha rua vende Granado e Phebo como se fosse a coisa mais chique do
mundo e vende boinas francesas como se fosse a mais clichê. Minha rua
parece São Paulo quando tem briga de motoboy, parece a Alemanha quando
eu desço com as minhas canelas brancas para caminhar e parece o melhor
lugar do mundo quando não tem ninguém berrando. Mas tem sempre alguém
berrando na minha rua. Ou buzinando. O que dá no mesmo.
Dizem que essa rua já chamou “do pau”. Não sei, tem de tudo na minha rua,
mas até agora não arrumei nada que me fizesse chamar essa rua de rua do
pau. Vai ver é por isso que tudo me irrita tanto.
Aí, (esse aí é de “e então” e não aquele “aiê” de carioca, ok?) essa semana,
um novo elemento se uniu ao mundo de elementos da minha rua que tem de
tudo. Os ratos. Esses seres imundos, nojentos, inferiores, aterrorizantes.
Escutava o som deles de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. Em meio
a todos os outros infinitos sons e de todas as infinitas pessoas. Sempre os
ratos. Os ratos. Os ratos. E já tava ficando louca. E ainda mais mal humorada.
E ainda mais reclamona. E ainda mais paulista escrota e com orgulho. E tudo
mais. Até que encontrei a filha do zelador na rua e ela apontou, com seu
dedinho de quem tem quatro aninhos de idade e uma vida linda, que aquele
som, na verdade, era dos macaquinhos da árvore que fica em frente ao meu
quarto.
Eu tinha macaquinhos lindos na árvore, que coisa bucólica, pueril. Vivam os
macaquinhos!
Eram macaquinhos fofos, lindos, bebês, uns chuchuzinhos de seres. E eu subi
correndo pra ficar vendo os macaquinhos e chorando. De arrependimento.
De emoção. De saudade. Sem motivo. De tristeza por eu estar sempre na
defensiva e não conseguir ver nem as coisas boas. As coisas bobas. Os
macaquinhos. E eu sempre vendo rato em tudo.
Na minha rua, ainda que emprestada, tem de tudo, até motivos pra sorrir um
pouco ou tentar ser uma pessoa melhor.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h10
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Você.

De Nelson Botter Jr.

Dois peixes num aquário.
A luz neon refletida nos olhares, tímidos, fixos e cobertos de desejo.
Na vitrolinha os acordes melódicos de One tentam abafar os burburinhos da cidade lá fora.
Is it getting better?
Foi-se o tempo em que havia esperança num mundo melhor, foi-se o tempo em que as ilusões tapavam nossas turvas visões.
Naquele instante, milésimos de segundo, só havia aqueles dois peixes, não só no aquário, mas em todo o oceano.
Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão, dava pra ver o tempo ruir.
O sorriso metálico e angelical invadia cada centímetro do concreto que separava aquelas duas bocas.
Bocas nervosas, procurando oxigênio na água artificial daquele aquário.
Qual comprimido você prefere?
O vermelho ou o azul?
Prefiro a língua, a tua, que me invade sem pedir licença e bagunça tudo por aqui, aqui por dentro, aqui, põe dentro.
Uma tormenta em nossos aquários.
Enquanto os peixes nadam, dançam ao som da música da vida, o mundo lá fora pára, os tubarões não mais existem, o cheiro da fumaça se transforma em lavanda, as buzinhas viram trombetas, o sangue volta a jorrar, em gozo.
A tua carne na minha boca, todas as carnes, todas vivas e ricas em sabor.
Invado-te com a força e delicadeza de um felino, espirrando meu veneno dentro do teu ser, fazendo-te gemer e propagar todos os sons dentro da água, cravando tuas escamas nos corais e apontando novas cores para a noite escura e sem graça que nos aguarda lá fora, nos limites de nosso espesso vidro.
One love, get to share it, leaves you baby, you don't care for it.
Os altos muros mouros que cercam os quadris que agora dançam para mim, conforme a maré, trazem movidas de terras distantes, do oriente desorientado, cravados em tuas madeixas que adoram tocar minhas escamas, no vai e vem da correnteza, no ritmo da dança do teu ventre.
Miro as coxas grossas que se exibem, pedem minha boca, minha calda, minhas barbatanas.
E é assim, num pacto velado, que os peixes seguem em frente, nadando a favor ou contra a maré, mergulhando no abismo do desconhecido e voltando à tona para respirar, domando cavalos-marinhos e contando estrelas do mar no céu.
E é assim que a música acaba, numa lucidez silenciosa.
Os olhares que se distanciam.
As saudades que alimentam.
Os desejos que afogam.
Os sorrisos que novamente se encontram.
Nada mais.
Nada menos.
Na medida.
Encaixes perfeitos.
Dois peixes num aquário.

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h51
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O resto é papo-furado.

De Antonio Prata.

Branca de Neve, 63 anos, está morando nos subúrbios de Miami desde o final da década de 80. Ainda conserva as bochechas rosadas de antigamente, embora a implacável ação do tempo e algumas plásticas mal-sucedidas tenham tirado a maciez da juventude. O negro dos cabelos continua igual, e ela nega usar qualquer tintura. “Só faço hidratação e, ultimamente, escova progressiva. A cor é a que Deus me deu”.

Não foi fácil convencer Branca a dar a entrevista. Só topou conversar conosco depois que acordamos que não publicaríamos nada que ela não autorizasse. Uma carta dos três porquinhos, dizendo que já haviam participado anteriormente, sem danos às suas imagens, também foi de grande ajuda. Vamos à entrevista, concedida por telefone.

Em primeiro lugar, Branca de Neve, esse é seu nome mesmo? Ninguém se chama Branca de Neve, né? Meu nome é Margareth Wilson McBright. McBright por parte do meu ex-marido.

O príncipe? Prícipe? Ha! Ha! É impressionante como as pessoas acreditam nos contos de fadas. Bom, eu também, no início, acreditei, só porque ele chegou à cavalo. Ele era um cafa ridículo. Queria era pegar todas dos contos de fada. No primeiro ano de namoro, deu em cima de todas as minhas amigas: Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel. Até nas fadas madrinhas ele passou umas cantadas.

Nossa! E aí, você se separaram? Sim, já faz mais de dez anos. Há cinco anos me casei com um dos caçadores que mataram o lobo mau. O Brian. Tudo ia bem, mas há uns meses ele foi processado pelo Greenpeace e está cumprindo cinco anos de cadeia.

Nossa, Branca, sua vida foi difícil, né? Muito. Não é fácil ser ex-personagem de contos de fadas. Você tem toda aquela exposição por um tempo, mas depois te esquecem e você é trocada por um Schrek, um Toy Story qualquer. É triste.

E por que você foi para os EUA? Nos anos oitenta, vim pra cá fazer uma plástica, arrumei uns freelas em publicidade e acabei ficando. Fiz muita propaganda de sabão em pó. Ganhei algum dinheiro até.

E quais os planos para o futuro? Estou pensando em abrir uma escolinha ensinando jovens a fazer carreira em conto de fada. Dar uma orientação, ver quem tem mais jeito pra princesa, quem daria uma boa fada, uma madrasta, essas coisas. Tem muita menina talentosa aí, elas só precisam de orientação.

           *                 *             *
Fizemos mais algumas perguntas, principalmente sobre um suposto processo que os sete anões estariam movendo contra Branca de Neve, à respeito de direitos autorais. Ela não quis responder e desligou o telefone bruscamente. Correm em Miami boatos de que Branca esteja muito deprimida e que sofre a tragédia do alcoolismo. A reportagem torce para que sejam mentiras infundadas e que nossa querida Branca volte a ser valorizada como um dia já foi. Força, Margareth!

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h12
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Uma vida de segunda ou cruzando o Paraíso, amigo Sam Sheppard

De Xico Sá.

Ainda na cama, o grupo Morphine toca “buena”, aquela, faço as promessas da semana e os três desejos de segunda.

Saio do escuro e mendigo um naco de sol, bem-aventurados os lagartos que nadam no seco.

Esta semana eu te quero, eis o primeiro  e talvez único desejo. Não vale dizer “eu não tenho roupas”, daqui vejo o desespero diante do armário lotado, que venhas só de botas mesmo que serás um presente para todos os vagabundos da noite.

A tira do Laerte antes do horóscopo. Esse cara tá foda, uma fase que nunca acaba. Alguém diz.

Estamos numa fase como as nossas tripas.

Com fome, mas sem saber donde vem o ronco, se da minha pança ou da linda barriguinha dela.

Amo a minha cachorra chapada e bêbada, amigo zero quatro.

Dois bules de café amargo, cream cracker, manteiga Aviação,de lata, duas ou três coisas que nunca saberemos de nós dois sobre todas as outras coisas sem importância.

Os caras morreram, agora nos demos conta, inclusive Antonioni, mas nós estamos apenas de ressaca, amor, essa dengue sartreana da moléstia, calma ai, calma ai, sem desespero, ao lusco-fusco estaremos tinindo de novo.

Nuestros horóscopos para agosto, mas como agosto se agosto, Bárbara Abramo, caiu em julho este ano, tragédia de avião e tudo com cento e tantos mortos?

Ao sair não bata a porta, deixa aberta para que o vento devolva o teu cheiro e eu goze mais uma vez antes que dobres a esquina do Paraíso adonde ganha a vida, à custa da neutralidade suspeita, o velho babaca do teu analista.

[do libreto "Tripa de cadela & outras fábulas bêbadas", breve pela editora Dulcinéia Catadora]

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h23
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